Amigos desde a adolescência e sócios na produtora de jogos Manifesto Game Studio, os pernambucanos Túlio Caraciolo e Vicente Vieira, ambos com 29 anos, passaram quatro anos insistindo no desenvolvimento de games para console. O primeiro ano foi tranquilo, com a empresa incubada no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco. Mas foi só lançar o empreendimento no mercado para o balanço pender para o vermelho e bater aquele desespero. A saída encontrada pelos empresários foi investir nos jogos casuais, distribuídos pela internet e voltados para nichos bem específicos. Deu certo.
O primeiro jogo da nova safra, o Fruitsinc, que convida o usuário a administrar uma fazenda de frutas, foi lançado em maio do ano passado e virou sucesso entre as mulheres acima dos 35 anos. Distribuído em canais digitais e pelo Facebook, o game foi traduzido para dez idiomas. Hoje, é vendido em 40 países e já atingiu a marca de 7 milhões de usuários por mês. O faturamento da empresa, que tem 25 funcionários, foi de R$ 500 mil em 2011. O valor deve dobrar neste ano.
Buscar nichos específicos e apostar na tecnologia para proporcionar ao consumidor novas experiências faz parte da estratégia das empresas da nova cena digital do Recife. Muitas delas participaram da Campus Party Recife, evento que reuniu quase 3.000 pessoas na cidade entre os dias 25 e 29 de julho. Foram 200 horas de palestras, oficinas, debates e fóruns, em cerca de 180 atividades, em uma área de 30 mil metros quadrados. “O objetivo foi fazer com que as pessoas se conhecessem, fizessem networking”, diz Bruno Souza, presidente do Instituto Campus Party. “Os jovens ficaram aqui cinco dias e isso abriu uma oportunidade para que fizessem negócios.”
A Campus Party Recife também abriu espaço para que os participantes apresentassem novos produtos para um mundo melhor. A Proativa Soluções em Tecnologia ganhou o primeiro lugar no concurso da Wayra, aceleradora global de startups digitais da Telefônica | Vivo, com o Prodeaf, uma plataforma que traduz o português, falado e escrito, para Libras, a Língua Brasileira de Sinais. O produto, desenvolvido com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vai beneficiar cerca de 7 milhões de brasileiros que têm deficiência auditiva. “Estamos vendendo para empresas e organizações que por lei são obrigadas a atender a essa população”, diz o diretor de negócios da Proativa, João Paulo Oliveira. “Acertamos com o Bradesco e estamos negociando com outros dois bancos de grande porte”, afirma. Ao vencer o Wayra Contest na Campus Party Recife, a equipe ganhou uma viagem de uma semana à academia Wayra em São Paulo e foi convidada para participar do Programa de Incubação do Porto Digital, cluster que há doze anos reúne 200 empresas de tecnologia no centro histórico do Recife, sem passar pelo processo seletivo padrão.
Acessibilidade e sustentabilidade
A construção de um mundo mais justo e equilibrado tem sido uma das principais preocupações das startups digitais da capital pernambucana. As empresas têm direcionado os produtos e serviços para promover a acessibilidade, a cultura local, a sustentabilidade e a inclusão social.
A Joy Street, empresa do Porto Digital, não vende jogos nem softwares, mas sim experiência. O principal produto da empresa é o OJE, sigla para Olimpíadas de Jogos Digitais e Educação. Trata-se de uma plataforma com games que facilitam a aprendizagem e que podem ser usados desde o ensino fundamental até a educação corporativa, passando pelo ensino técnico. “É a gamificação do processo de aprendizagem”, diz André Araújo, gerente de negócios da Joy Street. “A gente cria uma experiência e, no meio dela, aproxima os alunos do professor.”
Lançado em 2008, o OJE já teve a participação de 100 mil alunos da rede pública dos estados do Acre, Pernambuco e Rio de Janeiro, e a meta é atingir 2 milhões estudantes da rede pública em todo o Brasil até 2014. A Joy Street, que tem atualmente 30 funcionários, entre engenheiros de software, designers, comunicadores, educadores e artistas gráficos, deve fechar o ano com um faturamento acima de R$ 10 milhões.
Já a Guaraling, startup da I2 Mobile Solutions, empresa que há seis anos desenvolve aplicativos para plataforma móvel e que tem no portfólio clientes como Nestlé, BMW, Telefônica, Claro, Nokia e Nivea, investiu na mitologia local para criar histórias interativas que, associadas a jogos, passem uma mensagem positiva e levem à reflexão. O primeiro produto da startup é o Ka'arupan, desenvolvido para tablets e smartphones. A palavra, inventada pelos desenvolvedores, mas inspirada no tupi guarani, dá nome a uma terra fantástica onde se desenrola a história de Anrati, jovem que acidentalmente deixa seu vilarejo no escuro e vai atrás de uma solução para a situação que ele mesmo gerou. “O foco é a diversão, mas queremos adicionar uma camada de desenvolvimento social e um consequente impacto positivo no mundo”, diz o designer Felipe Quérette.
Necessidades locais
O produto interno bruto pernambucano cresceu 4,5% em 2011, contra os 2,7% de aumento no PIB brasileiro no ano passado. Esse desenvolvimento econômico tem levado as pequenas e médias empresas de informática a criar produtos e serviços para atender às necessidades locais. Se antes as empresas do Porto Digital se preocupavam em produzir soluções para multinacionais como Motorola, Microsoft e Nokia, agora elas investem em serviços de alto valor agregado para as cadeias produtivas que se desenvolvem do litoral ao sertão do estado. As frutas produzidas no vale do São Francisco são agora rastreadas pela Opara, plataforma online criada por uma startup local para aumentar o controle e a rastreabilidade da produção de alimentos da lavoura à prateleira do supermercado. A ferramenta, que também pode ser utilizada na produção de flores e peixes, fornece informação em tempo real por tablet e smartphone. O primeiro teste foi feito em quatro fazendas mantidas no Brasil por um grupo holandês. O resultado foi o aumento de 30% da produtividade e a redução de 4% das perdas em relação à safra anterior.
O futuro da cena digital do Recife aponta ainda para a produção de plataformas de dados e soluções para alguns espaços que estão em construção no país – em Pernambuco, está sendo levantada a Cidade da Copa, o primeiro centro urbano do Brasil planejado a partir do conceito de cidade inteligente. O Centro de Estudos Sistemas Avançados do Recife, o Cesar, uma das âncoras do Porto Digital, montou até um grupo de pesquisa para estudar o assunto. São 15 especialistas de diversas áreas, de engenheiros a psicólogos, que se debruçam em soluções para o trânsito, o abastecimento de água, o consumo de energia e a interação social nas cidades. “Estamos mudando de uma informática tradicional para uma informática de assistência pessoal e social”, afirma o engenheiro de sistemas Eduardo Oliveira. “Passamos de bons produtores de tecnologia para bons produtores de coisas que usam a tecnologia", resume o gerente de negócios da Joy Street, André Araújo.
Fonte: Sebrae
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