Mediar conflitos fundiários era a rotina do advogado André Albuquerque há dez anos. Diretor-presidente da Companhia de Habitação de Pinhais, região metro-politana de Curitiba, Paraná, ele não se contentava em despachar do escritório: quase todos os dias, ele saía para con-versar com moradores e proprietários de áreas invadidas. Incomodado com as irregularidades, começou a pesquisar uma solução jurídica ideal: as famílias pagariam pela terra, os donos seriam indenizados e os impostos, recolhidos. A proposta se transformou em sua missão de vida.
Foram meses de estudo até criar uma fórmula viável para todos. Com sua solução inovadora, ele fundou, em 2001, a Terra Nova, uma das primeiras empresas brasileiras a ter como base do seu modelo de negócios uma causa social (leia o depoimento de Albuquerque, 45 anos, à página 68). Funciona assim: o valor recebido pela mediação remunera os sócios da empresa e também é usado para transformar favelas, com ruas, luz elétrica e escolas. “Hoje tenho convicção de que é impossível resolver os problemas do mundo sem ganhar dinheiro”, diz.
Na época em que apostou nessa ideia, Albuquerque era um estranho no ninho. A única alternativa para quem, a seu exemplo, pretendia atacar problemas sociais e ambientais parecia ser a de abrir uma organização não-governamental. Hoje, não mais. Sem medo ou constrangimento de querer ganhar dinheiro, novos empreendedores têm descoberto que lucros e preocupação social podem, sim, fazer parte de um mesmo plano de negócios. É um movimento que nada tem a ver com filantropia ou assistencialismo. Os empresários com causa são guiados pelo desejo legítimo de crescer e ganhar mais para combater problemas sociais ou ambientais. “Esse tipo de negócio está em ascensão no mundo todo”, afirma o inglês John Elkington, autoridade mundial em sustentabilidade e coautor do livro Empreendedores Sociais: o Exemplo Incomum das Pessoas que Estão Transformando o Mundo. Pesquisa recente das consultorias GlobeScan e SustainAbility, realizada com 559 experts em sustentabilidade do mundo inteiro, mostra outro dado curioso: empresas que se dispõem a solucionar problemas ambientais têm sido mais eficientes que ONGs. Esse fenômeno, explica Elkington, tem a ver com a mentalidade dos novos investidores que fizeram fortuna com empresas de tecnologia (veja entrevista com Elkington à página 74). Para eles, filantropia não basta: é preciso ter fins lucrativos para alcançar objetivos em grande escala e transformar a realidade de milhões de pessoas que se situam na base da pirâmide socioeconômica.
Os brasileiros começam a se alinhar com essa tendência global. Prova disso é a organização da Primeira Conferência de Negócios Sociais para Universitários na América Latina, que será realizada nos dias 18 e 19 de agosto, em São Paulo, promovida pela desenvolvedora de negócios Artemisia. “Observamos o crescimento de uma nova leva de empreendedores que têm se preocupado em promover uma economia mais inclusiva, mais verde”, diz Mônica de Roure, diretora no Brasil da Ashoka, organização mundial que apoia pessoas inovadoras interessadas em transformações de impacto. “Eles percebem um esgotamento do modelo de capitalismo que não provoca mudanças sociais e ambientais”, afirma Mônica. Atualmente, 20% dos 340 associados da Ashoka Brasil têm por objetivo estruturar negócios lucrativos, e não ONGs — é a maior proporção desde a fundação da entidade, em 1987.
Mudar o mundo ganhando dinheiro é uma pauta que começa a ocupar a agenda de empresas de todos os tamanhos. Em junho passado, nos Estados Unidos, o guru da administração Michael Porter deu um recado claro a 50 convidados VIPs de companhias como Eli Lilly, HP e Mars: “Os senhores precisam criar valor compartilhado. Uma nova geração de empreendedores com preocupações sociais está aproveitando as oportunidades de forma mais rápida que vocês”. Na visão de Porter, o resultado de uma empresa jamais pode ser compreendido como sucesso verdadeiro se não trouxer progresso econômico para a sociedade. O caminho mais eficiente para atingir esse objetivo, segundo ele, seria o de atuar em mercados muitas vezes ignorados pelos governos.
Para atingir resultados positivos, no entanto, a gestão desse tipo de empresa deve ser diferente da que se vê em modelos tradicionais. Antes de mais nada, é preciso rastrear toda a cadeia produtiva para buscar parceiros alinhados aos princípios de justiça social e proteção do ambiente. Outra característica é a abertura para parcerias. “A gestão é muito mais participativa”, diz Graziella Comini, coordenadora do Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo. O retorno financeiro também tem outro ritmo e costuma ser mais demorado. Por esse motivo, atrai investidores alinhados com expectativas de retorno também de longo prazo, além de acompanhamento em gestão.
O cenário financeiro parece bem favorável a empreendedores dispostos a abraçar uma causa. No fim de junho, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) anunciou que, a partir de 2012, vai investir US$ 100 milhões por ano em empresas que ofereçam soluções para trazer benefícios a pessoas na base da pirâmide na América Latina e no Caribe. As linhas de crédito do BID têm taxas semelhantes às de mercado, mas com prazos maiores. “São operações para ajudar a desenvolver novos modelos de negócio em mercados negligenciados”, diz Luiz Ros, gerente do departamento de Oportunidades para a Maioria do BID.
Grandes investidores passaram a ter interesse nos negócios com causa e no seu potencial de escala especialmente após a crise financeira de 2008. Assustados, muitos começaram a diversificar suas carteiras, antes focada apenas em retornos rápidos. Outros enxergaram mercados promissores em populações de baixa renda de países emergentes. E há os que faziam filantropia, mas perceberam mais vantagens de longo prazo nesses negócios. Levantamento publicado pelo banco de investimentos J.P.Morgan em novembro de 2010 mostrou que o potencial para investimentos de impacto será de US$ 400 milhões a US$ 1 trilhão nos próximos dez anos, em negócios nos setores de moradia, suprimento de água para áreas rurais, saúde materna, educação primária e serviços financeiros.
No Brasil, essa modalidade de investimento também começa a tomar corpo. Considere-se por exemplo a Vox Capital, fundada em janeiro de 2009, que está fazendo agora seu terceiro aporte e levantando um fundo de R$ 60 milhões. Os recursos serão aplicados em dez empresas de pequeno porte, com capacidade de crescimento e voltadas para solucionar problemas das classes C, D e E nas áreas de educação, saúde, habitação e serviços financeiros. “Temos analisado, em média, 12 negócios por mês com esse perfil”, diz Antonio Moraes Neto, cofundador da Vox. Ele avalia três aspectos: os efeitos qualitativo (quanto o negócio muda a vida das pessoas) e quantitativo (alcançar 1 milhão de pessoas em cinco anos e dezenas de milhões em dez anos) e se o negócio chega, de fato, à baixa renda.
Para obter investimento de um fundo, o negócio precisa mostrar como vai crescer. “Tanto no Brasil quanto no resto do mundo, temos notado que é, sim, crescente o interesse de investidores. Mas minha impressão é de que hoje existem mais investidores do que negócios preparados para receber esses recursos em nosso país”, diz Vivianne Naigeborin, assessora estratégica da Potencia Ventures, organização internacional de apoio a negócios que criam oportunidades para a população de baixa renda. Percepção semelhante tem Fred Werneck, gestor de um dos fundos da ResponsAbility Social Investments, organização que planeja investir US$ 1 bilhão na área socioambiental. “Analisamos mais de 650 propostas nos últimos seis meses, mas gostamos de menos de dez. Muitos desenvolvem bem a ideia social, mas não mostram como vão ganhar escala”, diz.
Enquanto o modelo de negócio não se mostra maduro, é o empreendedor que assume o risco de testar a ideia. Muitos refazem o plano de negócios várias vezes depois de colocá-lo em prática. Com recursos próprios, equipe enxuta e sem as isenções fiscais dadas a ONGs, eles avançam em marcha lenta nos primeiros passos. “O fluxo de caixa está sempre no vermelho, mesmo quando a empresa tem receitas. O empreendedor precisa se preparar”, diz Renato Kiyama, gerente da Aceleradora de Negócios da Artemísia, organização de suporte a empreendimentos sociais. Superada essa fase, o desafio é convencer os investidores de que a empresa está pronta para crescer.
Nesta reportagem, você vai conhecer histórias de 36 empresários dispostos a crescer. Do mesmo modo como o advogado Albuquerque, eles foram movidos por uma causa e criaram negócios para ganhar dinheiro e fazer a diferença nas áreas de saúde, educação, inclusão econômica, ambiente, comércio justo e moradia. São, sem dúvida, exemplos inspiradores.
Fonte: Pequenas Empresas & Grandes Negócios
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