O fotógrafo Maurício de Paiva, da revista National Geographic Brasil , ganhou a menção honrosa do Prêmio Sebrae de Jornalismo com o material gráfico da reportagem “Os bons frutos da economia verde”, onde são citados exemplos de empreendedorismo que ajudam a viabilizar a produção e consumo sustentáveis e promover prosperidade genuína e bem-estar. Um dos exemplos citados da matéria vem do Ceará e une ciência e empreendedorismo.
O químico Afrânio Aragão Craveiro, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC),recebeu um pedido do maior produtor regional de camarão para pesquisar uma solução para seus resíduos de processamento montanhas malcheirosas de casca e crustáceo.
Sem receio de lidar com uma indústria considerada suja por seu histórico, Afrânio Craveiro apostou firme no princípio da reciclagem: a melhor maneira de eliminar resíduos é transformá-los em matéria-prima. Na verdade, ele inventou a matéria-prima para depois criar a indústria
que a utilizaria.
Lançou mão de sua ciência para descobrir a serventia de um polímero
natural chamado quitina, presente na carapaça do camarão e de outros crustáceos, como lagosta, siri e caranguejo, cuja principal característica é aglutinar e absorver gorduras e óleos.
Com base na quitina, o químico desenvolveu a quitosana, que tem “mil e uma Utilidades”: pode ser usada no combate à obesidade e ao colesterol alto, nos vazamentos de petróleo através de microesferas que, pulverizadas sobre o poluente, derramado em águas doces ou salgadas, formam aglomerados fáceis de recolher, tornando a limpeza
mais eficiente.
A película da quitosana pode também ser útil em varejões e supermercados, com chances de retirar de circulação quantidade monumental de filmes plásticos usados para envolver alimentos perecíveis, como carnes, legumes, verduras e frutas. O químico chegou a comercializar 1 milhão de cápsulas contra aobesidade e colesterol no primeiro ano, fabricadas em uma empresa incubada no Parque de Desenvolvimento Tecnológico (Padetec), da UFC, dirigido por ele.
Inspirado pelo pai, Alexandre Cabral Craveiro, também químico, fabricou uma película para uso em curativos médicos uma bandagem capaz estancar hemorragias, como as decorrentes de cateterismo, favorecendo a cicatrização.
Outro bom exemplo citado por Liana John na matéria sai da Floresta Amazônica e segue para uma fábrica de peças automotivas de São Bernardo, em São Paulo: o curauá, uma bromélia semelhante ao abacaxi,cujas fibras são resistentes, longas, flexíveis e duráveis – que pode substituir todos os usos conhecidos da fibra de vidro, além de servir para reforçar garrafas PET, fabricar sola de sapato, tomar o lugar do amianto nas caixas-d’água e dar mais maleabilidade a vigas de concreto para construções em áreas sujeitas a terremotos.
As utilidades são múltiplas. Quando a fibra de curauá entra em compósitos termoplásticos,o material resultante resiste bem a impactos, tração e flexão; não enferruja nem se deteriora quando exposto a intempéries; serve como isolante de eletricidade; e ainda permite moldagem.
O diferencial da fibra de curauá é sua origem vegetal – ou seja, um recurso renovável –, enquanto materiais com propriedades similares são de origem mineral.
Se considerado todo o ciclo de vida dos produtos, sua utilização consome menos energia, emite menos carbono e produz menos resíduos, embora, devido à mistura com os plásticos, o compósito não seja biodegradável.
De olho em tantas vantagens técnicas, o empreendedor Alberico Pasquetto Jr. foi à Amazônia atrás de produtores de curauá para fornecer a fibra. Não encontrou quem pudesse garantir a quantidade necessária com o padrão de qualidade exigido na fabricação de peças internas de automóveis, como os revestimentos de teto assoalho,portas e colunas ou a estrutura do quebra-sol e do console.
Então decidiu verticalizar e passou a plantar ele mesmo, em uma fazenda localizada em Santarém, no Pará. Ali também instalou uma fábrica para extrair a fibra e tecer as mantas enviadas ao ABC paulista.
No fim de 2011, por exemplo, representantes da Toyota do Japão receberam amostras das mantas compostas de termoplásticos e curauá e, em fevereiro de 2012, solicitaram o envio de um contêiner de 40 toneladas, com a perspectiva de passar logo a dois contêineres por mês. Ele contou à reportagem que teve de abrir mão por que não tinha produção suficiente por falta de matéria prima“
A exploração da borracha natural, abandonada no estado do Amazonas desde o declínio do primeiro ciclo do produto, há um século, foi reabilitada por algumas comunidades da Amazônia.
Toda a produção local, com mais um tanto vindo do Acre, soma cerca de mil toneladas por ano, 100% aproveitadas por uma fábrica paulista de pneus de bicicleta e motocicleta recém-instalada em Manaus. A produção em 2012 alcançou 1 milhão de pneus de bicicleta e 100 mil de moto, usando 70% de borracha sintética e 30% de borracha natural.
“A borracha natural proveniente de extrativismo é mais viscosa e exige uma etapa industrial a mais de plastificação. Ela também chega mais suja, com defeitos provocados pela chuva ou queda de folhas e detritos durante a colheita. Outra dificuldade é a distância entre as árvores nos seringais nativos e do seringal até a fábrica, pois aproteína da seringa vai se deteriorando”,explicou o empresário Leonardo Lavorin.
Porque, então, pergunta a jornalista, ele aposta no produto de origem extrativista e na valorização da mão de obra local? “Por compromisso com os seringueiros e com a Amazônia”, diz Lavorin. Um compromisso endossado pela política estadual de apoio às comunidades inseridas
em unidades de conservação de uso sustentável.
Fonte: Globo
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